Trabalhadores e sua vida real

Sobre a con­dição do tra­bal­ha­dor pobre no Bra­sil há um mundo a con­he­cer. Este imenso país, emer­gente na atual eco­no­mia mun­dial, ainda deve muito a seus tra­bal­ha­do­res. Afi­nal há um longo caminho a per­co­rrer no que diz res­peito à reto­mada da cons­trução de um Estado de bem estar social, que se iniciou nos anos 30 do século XX, mas que foi pau­la­ti­na­mente des­mon­tado a par­tir da dita­dura mili­tar (1964–1985) e pre­ca­ri­zado com a emer­gên­cia veloz do neo­li­be­ra­lismo no Brasil.

Se o Estado de bem estar social se enfra­que­ceu, ao con­trá­rio, a che­gada de empre­sas estran­gei­ras, a ampliação do agro­ne­gó­cio e a espe­cu­lação imo­bi­liá­ria nas cida­des fazem do Bra­sil uma refe­rên­cia eco­nô­mica no mundo glo­ba­li­zado, mas um contra-exemplo no que tange as desigual­da­des sociais, cujo país ocupa uma posição infe­liz­mente destacada.

20140009_imagen Maria Lucia Pires

Para tanto é pre­ciso que se empreenda um exer­cí­cio ana­lí­tico da con­dição do tra­bal­ha­dor, da fra­gi­li­dade das polí­ti­cas sociais e dos ser­viços públi­cos. É neces­sá­rio pau­tar que a dinâ­mica capi­ta­lista neo­li­be­ral age incon­se­qüen­te­mente, baseada na intensa explo­ração do tra­balho em um país onde o exer­cí­cio da cida­da­nia e da civi­li­dade começa somente agora a ser exer­cido. A evi­dên­cia é nos dar­mos conta da explo­ração do tra­balho e dos desa­fios que o Estado bra­si­leiro ainda tem que sal­dar com seus habi­tan­tes, em espe­cial com seus trabalhadores.

O esfo­rço de pes­qui­sar e ana­li­sar aca­de­mi­ca­mente o mundo do tra­balho, do tra­bal­ha­dor e de suas estra­té­gias de repro­dução nos leva a com­ple­xi­dade do viver, à impor­tân­cia polí­tica da edu­cação, da habi­tação, da saúde e da cul­tura e, prin­ci­pal­mente, na capa­ci­dade cole­tiva de reagir a tan­tas fal­tas e adver­si­da­des ainda pre­sen­tes na socie­dade brasileira.

Veja­mos por exem­plo: os desa­fios de morar. Quando, no seu antigo bai­rro de toda a vida che­gam ameaças tra­zi­das por uma vizin­ha­nça que intro­duz novos usos e for­mas de ocu­pação, mas que não insere o antigo mora­dor nesta nova con­fi­gu­ração de bai­rro, ao con­trá­rio, o esconde, lhe tira equi­pa­men­tos bási­cos e o rechaça. Da mesma forma que uma popu­lação de baixa renda que se muda para um con­junto habi­ta­cio­nal que não tem os ser­viços cole­ti­vos e de infra-estrutura implan­ta­dos ou des­or­de­na­da­mente implan­ta­dos e que gera um forte con­flito interno entre os pró­prios moradores.

Por antí­tese vivem-se situações, onde os desa­fios frente à ausên­cia do Estado e escas­sez de espaço público nos reve­lam a capa­ci­dade e cria­ti­vi­dade de tra­bal­ha­do­res e mora­do­res em orga­ni­zar e des­fru­tar do seu pró­prio espaço de lazer. Ao mesmo tempo, ao se inves­tir na pes­quisa baseada na his­tó­ria local comu­ni­tá­ria pode-se des­ve­lar e reve­lar a riqueza da cul­tura popu­lar não midia­ti­zada e infe­liz­mente igno­rada pela opi­nião pública e pelo Estado. Uma per­cen­ta­gem sig­ni­fi­ca­tiva da classe média ao aban­do­nar a edu­cação pública, prin­ci­pal­mente pela carên­cia de sua qua­li­dade, deixa de con­vi­ver com a reali­dade plu­ral de todos os estra­tos de sua classe e com os mais pobres. Mas é pos­sí­vel des­co­brir, como, ape­sar de tan­tas carên­cias, este mesmo espaço esco­lar apre­senta uma poten­cia­li­dade fun­da­men­tal na for­mação da auto­cons­ciên­cia cole­tiva, sendo o meio estra­té­gico de inter­se­cção com a diver­si­dade popu­lar e gera­cio­nal das coletividades.

Somos her­dei­ros ainda de uma socie­dade escra­vista e auto­ri­tá­ria e que nos remete a um novo momento de emer­gên­cia socio­eco­nô­mica com for­tes ape­los con­su­mis­tas. Há uma grande par­cela social ávida e carente de sua inse­rção no mundo das mer­ca­do­rias. Mas tam­bém é neces­sá­rio sublin­har e pau­tar, que este pro­cesso deva vir acom­pan­hado de segu­ra­nça ali­men­tar em detri­mento de polí­ti­cas clien­te­lis­tas que apro­fun­dam o bio­po­der, assim como o emprego digno pas­sí­vel de res­peito às novas tare­fas de ocu­pação labo­ral e suas pró­prias for­mas de orga­ni­zação, como os cole­to­res e reci­cla­do­res de lixo. Daí a impor­tân­cia de uma peda­go­gia polí­tica que incre­mente a par­ti­ci­pação civil e cidadã tão carente ainda em nosso país, mas que sem ela de fato não haverá demo­cra­cia e igual­dade. Cre­mos que, frente a um cená­rio de tanta desigual­dade de renda e da, ainda pre­cá­ria, con­dição social dos tra­bal­ha­do­res bra­si­lei­ros, o exer­cí­cio do con­vi­ver e repar­tir uma agenda de reivin­di­cações é um direito e um exer­cí­cio de civi­li­dade e cidadania.

A vida real nos revela que os espaços comu­ni­tá­rios e de repro­dução do tra­bal­ha­dor ainda são extre­ma­mente pre­cá­rios e inse­gu­ros. Ape­sar do des­cré­dito e da desilu­são com o sis­tema polí­tico, em con­tra­par­tida, cons­ta­ta­mos a capa­ci­dade cada vez maior de mobi­li­zação, cons­cien­ti­zação e ação em prol de uma cole­ti­vi­dade que luta por seus direi­tos e terri­tó­rios de vida.

E advo­ga­mos uma ciên­cia par­ti­ci­pa­tiva que siga as indi­cações meto­do­ló­gi­cas do estudo do espaço. Espaços que se fazem terri­tó­rios de vida e luta dos trabalhadores.

Para maio­res informações:

BRAGA, Hilda Maria Car­valho; NUNES, Eduardo José Fer­nan­des & MENEZES, Maria Lucia Pires (Orgs.). Terri­tó­rios de Vida. Terri­tó­rios de Luta. Habi­tação, segu­ra­nça ali­men­tar e lazer na vida do tra­bal­ha­dor. Feira de San­tana: UEFS Edi­tora, 2013.

 

Maria Lucia Pires Mene­zes é pro­fes­sora e pes­qui­sa­dora da Uni­ver­si­dade Fede­ral de Juiz de Fora

 

Ficha biblio­grá­fica
MENEZES, M.L.P. Tra­bal­ha­do­res e sua vida real. Geo­cri­tiQ. 20 de febrero de 2014, nº 33. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2014/02/trabalhadores-e-sua-vida-real/>

Share and Enjoy

  • Facebook
  • Twitter
  • Delicious
  • LinkedIn
  • StumbleUpon
  • Add to favorites
  • Email
  • RSS

Deja un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *

Puedes usar las siguientes etiquetas y atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>