Urbanização militar e as origens da habitação social no Brasil

20130015_imatge Nelson da Nobrega

Vila Pro­le­tá­ria Mare­chal Her­mes (1935). No cen­tro da foto, o edi­fí­cio moder­nista do Cinema Lux, inau­gu­rado em 1934. Fonte: Museu Aero­es­pa­cial (RJ)

Pela impor­tân­cia que tem os espaços apro­pria­dos, cons­truí­dos e con­tro­la­dos nas cida­des pelas forças arma­das, em War and the city [1] o geó­grafo Gre­gory Ash­worth  reivin­di­cou o recon­he­ci­mento de uma “geo­gra­fia urbana mili­tar”, do mesmo modo que se admite a geo­gra­fia urbana social, eco­nô­mica, polí­tica, etc.  Esta reivin­di­cação e a biblio­gra­fia do livro, essen­cial­mente anglo-saxônica e em que há pou­cas refe­ren­cias de obras vol­ta­das espe­ci­fi­ca­mente ao assunto ante­rio­res a 1980, suge­rem que só então a pro­dução do espaço urbano cas­trense começou a cha­mar ate­nção dos geó­gra­fos, mesmo em paí­ses em que, dife­rente de ibe­roa­me­rica, não havia cen­sura ou pro­fundo rechaço entre civis e militares.

Em Espanha, con­forme obser­vou Rafael Mas Her­nan­dez, a par­tir desta época os Pro­fes­so­res Fran­cisco Qui­rós Lina­res, em Oviedo, e Hora­cio Capel, em Bar­ce­lona, for­ma­ram duas esco­las  de estu­dos urba­nos com des­ta­ca­das pes­qui­sas sobre os espaço mili­ta­res e o desen­vol­vi­mento das cida­des.  Ao jus­ti­fi­car seu inter­esse sobre o assunto – que serve para o nosso caso – Her­nan­dez expõe que resol­veu enfrentá-lo depois de que em seus estu­dos mais amplos sobre Madrid e outras cida­des ter se depa­rado repe­ti­da­mente com os espaços e as ações do esta­mento mili­tar. Con­tudo, ele não reivin­di­cou uma geo­gra­fia urbana militar.

No Bra­sil, espe­cial­mente quanto à cidade moderna e con­tem­po­râ­nea, os espaços urba­nos mili­ta­res ainda são terra incóg­nita para a geo­gra­fia urbana.  Sim­ples­mente des­con­he­ce­mos pro­ces­sos e mor­fo­lo­gias urba­nas que foram ou con­ti­nuam sendo influen­cia­dos ou deter­mi­na­dos pelas neces­si­da­des e von­tade das cor­po­rações mili­ta­res e seus mem­bros, mesmo quando se trata de pro­ble­mas estri­ta­mente civis de grande impor­tân­cia, como no caso da pri­meira inter­ve­nção do governo fede­ral na habi­tação social durante a pre­si­dên­cia (eleita) do Mare­chal Her­mes da Fon­seca (1910–1914). As duas vilas pro­le­tá­rias então cons­truí­das, Orsina da Fon­seca (1913), no subúr­bio indus­trial da Gávea, e, sobre­tudo, Mare­chal Her­mes (1914), em pequena par­cela dos vas­tís­si­mos terre­nos da Vila Mili­tar (1909), no subúr­bio ferro­viá­rio a oeste da cidade, são mar­cos indis­cu­tí­veis da his­tó­ria da habi­tação social bra­si­leira que, entre­tanto, até pouco tempo foram igno­ra­das, mal dimen­sio­na­das ou deli­be­ra­da­mente evi­ta­das.  O pro­fundo rechaço aos assun­tos mili­ta­res pode começar a expli­car por­que arqui­te­tos moder­nis­tas e espe­cia­lis­tas da ques­tão da habi­tação silen­cia­ram sobre as vilas cons­truí­das pelo Mare­chal Her­mes. Isto per­mite ava­liar o quanto deve estar blo­queada nossa ima­gi­nação às pos­si­bi­li­da­des de con­si­de­rar­mos em nos­sos mapas urba­nos os espaços estri­ta­mente mili­ta­res que inte­gram a geo­gra­fia e a his­tó­ria da cidade.

Pas­sado um século exato, as 72 casas da Vila Pro­le­tá­ria Orsina da Fon­seca, situa­das em um dos bai­rros mais valo­ri­za­dos da Zona Sul carioca, foram com­ple­ta­mente des­ca­rac­te­ri­za­das e em parte subs­ti­tuí­das por edi­fí­cios resi­den­ciais.  Só per­ma­ne­ce­ram con­ser­va­das em sua forma e função as duas esco­las pri­má­rias. O con­trá­rio se passa na Vila Pro­le­tá­ria Mare­chal Her­mes, que se man­tém nota­vel­mente pre­ser­vada, graças prin­ci­pal­mente às res­trições à edi­fi­cação impos­tas pela ope­ração dos aviões da Base Aérea dos Afon­sos. Ou seja, trata-se de um espaço cons­truído e em parte regu­lado há um século pelos militares.

As vilas foram desen­ha­das por Pal­miro Pul­che­rio, engen­heiro mili­tar que já havia tra­bal­hado nas obras da Vila Mili­tar, esta última cons­truída pelas ordens do mesmo Mare­chal Her­mes, quando Minis­tro da Gue­rra (1906 – 1908). Na Gávea, as dimen­sões dos terre­nos não per­mi­ti­ram a Pul­che­rio desen­vol­ver por com­pleto sua con­ce­pção do que deve­ria cons­ti­tuir um bai­rro pro­le­tá­rio, embora tenha garan­tido a cons­trução de duas esco­las. Na Vila Pro­le­tá­ria Mare­chal Her­mes não houve esses limi­tes, o mili­tar pode projetá-la desde a estação ferro­viá­ria ao tea­tro, em 738 pré­dios des­ti­na­dos a dife­ren­tes tipos de famí­lias e a sol­tei­ros, dis­tri­buí­dos em um plano orto­go­nal de lar­gas ruas e bou­le­vards arbo­ri­za­dos, cen­tra­li­zado em uma grande praça cir­cu­lar con­tor­nada por qua­tro esco­las. Foi pre­visto ainda mer­cado, assis­tên­cia médica, biblio­teca, escola pro­fis­sio­na­li­zante, bom­bei­ros, polí­cia, correios e telé­gra­fos, cre­che, jar­dim de infân­cia, mater­ni­dade e reser­va­tó­rio de água. Mas no plano não houve espaço para a igreja, pro­va­vel­mente em função do anti­cle­ri­ca­lismo e do posi­ti­vismo arrai­ga­dos nos meios militares.

A atuação do engen­heiro mili­tar na his­tó­ria da habi­tação social bra­si­leira é impor­tante não só por ter sido pio­neira, mas tam­bém por que o pro­grama que ele desen­vol­veu em Mare­chal Her­mes ante­cipa em 30 anos mui­tas das inovações que os arqui­te­tos moder­nis­tas apli­ca­ram nos con­jun­tos pre­vi­den­ciá­rios cons­truí­dos nos anos 1940 e 1950, quando asso­cia­ram os pré­dios resi­den­ciais com trans­por­tes de massa, comér­cio, equi­pa­men­tos cole­ti­vos, sociais, edu­ca­ti­vos e de lazer para que fos­sem for­ma­dos ver­da­dei­ros bai­rros capa­zes de pro­du­zir um modo de vida urbano e de trans­for­mar imi­gran­tes rurais e os rudes da cidade em homens e mul­he­res modernos.

A Vila Pro­le­tá­ria Mare­chal Her­mes foi inau­gu­rada em pri­meiro de maio de 1914 pelo pre­si­dente da repú­blica, com mais de cin­quenta por cento dos pré­dios por con­cluir. O tenente Pul­che­rio foi mis­te­rio­sa­mente assas­si­nado em 1915. Até 1934 as obras na vila fica­ram para­li­sa­das, quando foram reto­ma­das por Getú­lio Var­gas, com a cons­trução de um cinema em um pré­dio moder­nista monu­men­tal.  Para a con­ti­nui­dade das obras, neste ano organizou-se um con­curso com júri for­mado por três gran­des arqui­te­tos moder­nis­tas – Satur­nino de Brito, Celso Kely e Affonso Ready – que desapro­va­ram expli­ci­ta­mente as pro­pos­tas que davam con­ti­nui­dade ao pro­jeto de Pul­che­rio.  Nos vinte anos seguin­tes a vila foi sendo con­cluída com a cons­trução de blo­cos resi­den­ciais com tipo­lo­gias moder­nis­tas e, como pre­visto pelo engen­heiro mili­tar, com outros edi­fí­cios para o hos­pi­tal, a mater­ni­dade e o tea­tro, este último inau­gu­rado em 1954, com pro­jeto de Ready e pai­sa­gismo de Burle Marx.

Para maio­res informações:

OLIVEIRA, A. C. T. de; FERNANDES, N. da N..  Mare­chal Her­mes e as (des)conhecidas ori­gens da habi­tação social no Bra­sil: o para­doxo da vitrine não-vista, en Mar­cio de Piñon de Oli­veira; Nel­son da Nobrega Fer­nan­des (orgs.), 150 anos de subúr­bio carioca, Rio de Janeiro, Lam­pa­rina; Faperj; EdUFF, 2010.

Nel­son da Nobrega Fer­nan­des é pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fede­ral Flu­mi­nense, Rio de Janeiro.

 

Ficha biblio­grá­fica
FERNANDES, N. da N. Urba­ni­zação mili­tar e as ori­gens da habi­tação social no Bra­sil. Geo­cri­tiQ. 30 de noviem­bre de 2013, nº 15. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2013/11/urbanizacao-militar-e-as-origens-da-habitacao-social-no-brasil/>


[1] Ash­worth, G. J. War and the city.Lon­don: Routledge, 1991.

 

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3 thoughts on “Urbanização militar e as origens da habitação social no Brasil

  1. Gos­tei muito do artigo. Acre­dito que as cida­des lito­râ­neas no Bra­sil ten­ham sido for­te­mente influen­cia­das pelos engen­hei­ros mili­ta­res tais como o Rio, Cabo Frio, Vitó­ria, Sal­va­dor, Recife, Amapá, etc; São Paulo e outras do inte­rior têm uma lógica dife­ren­ciada suponho. Em tem­pos de neo­li­be­ra­lismo não me sur­preen­de­ria a pri­va­ti­zação e lotea­mento do Cam­pos dos Afon­sos (até o momento um boato). É bom lem­brar que uma praça no cen­tro de Alcân­tara (São Gonçálo) foi pri­va­ti­zada para cons­trução de um shop­ping. Aí o espaço cons­trói uma outra his­tó­ria.
    Um abraço

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