O campus capital leste, da mais importante universidade da América Latina (conforme indicam todos os rankings internacionais) — Universidade de São Paulo — onde funciona a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) ou USP-Leste, como é conhecida a segunda maior unidade daquela instituição, entrou em colapso (socio)ambiental.
Uma determinação judicial foi expedida em 21 de novembro de 2013, para que esse campus seja interditado e todas as atividades ali desenvolvidas sejam suspensas e transferidas para outros locais, mais saudáveis e seguros. Há um prazo — começo de janeiro de 2014 — para o cumprimento dessa determinação e a multa diária, em caso de desobediência, será de 100 mil reais (mais de 30 mil euros).
Por que chegamos a esse ponto? Até aqui, foram quase dez anos de história exitosa, promovida pela implantação de 10 cursos de graduação e oito programas de pós-graduação, envolvendo mais de 4 mil alunos, 284 professores e 224 funcionários.
Os cursos e atividades oferecidos pela EACH-USP, caracterizam-se pelo grande engajamento social, com potencial para a construção de vínculos fortes com as comunidades desassistidas das regiões do entorno do campus: a Zona Leste da cidade de São Paulo, onde há uma enorme concentração de população de baixa renda. Além do mais, todos esses cursos e possibilidades, pretendia-se que se desenvolvessem amparados por abordagens pedagógicas inovadoras e também por uma estrutura acadêmico-administrativa pensada para facilitar o diálogo interdisciplinar, em um ambiente livre dos velhos departamentos, historicamente comprometidos com a afirmação e desenvolvimento de identidades disciplinares que pouco se conhecem ou se frequentam (maiores detalhes disso, podem ser colhidos em algumas das indicações que fazemos ao final do artigo).
Porém, independentemente das realizações, das promessas e até mesmo dos problemas que já pudéssemos extrair da experiência dessa implantação (iniciada em 2005 e resumidamente aqui exposta), alguns descuidos importantes e bastante ilustrativos para esses tempos que correm, estão ameaçando a continuidade desse experimento. Essa ameaça não é muito diferente daquela que muitos dizem espreitar no futuro do nosso próprio planeta. Vejamos.
O campus da EACH-USP foi implantado em terreno integrante da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, o principal e maior curso d’água da cidade de São Paulo, nos limites do Parque Ecológico do Tietê. Com isso, entre outras coisas, pensava-se que se poderia oferecer destino mais nobre e proteção para tais limites, extremamente pressionados por sua condição totalmente urbana.
Construída em terreno com as fragilidades típicas de uma várzea de rio, cujo leito já fora desfigurado, e sobre um solo constituído em grande parte por material retirado desse leito ou depositado pelo próprio rio, como sói acontecer nas margens de qualquer curso d’água, a USP não cuidou adequadamente dessa sua condição. Realizou algumas edificações estruturalmente inadequadas para esse tipo de terreno, seja por causa da forma como foram construídas ou por causa da extensão de seus projetos, ou, então, porque nelas não foram feitos dutos de exaustão dos gases, principalmente metano (CH4) que automaticamente se forma em terrenos resultantes de depósito de material aluvionar com alta composição de matéria orgânica. E, para piorar ainda mais esse quadro, uma gestão extremamente descuidada do campus e da unidade, agravou essa condição de terreno “naturalmente” frágil, com a realização de um imenso aterro no campus, feito com resíduos de composição desconhecida, sem certificação ambiental e com origens muito suspeitas.
Resultado: hoje um dos grandes prédios construídos, onde funcionava o ginásio de esportes, ameaça ruir e está interditado; todos os outros prédios necessitam de sistema de exaustão de gases do subsolo; no aterro suspeito constatou-se a presença de inúmeros contaminantes, dentre eles metais pesados e várias substâncias cancerígenas.
Um movimento deflagrado pelos professores da EACH, em 10 de setembro de 2013, logo acompanhado pelos estudantes e funcionários da Escola, resultou em uma greve de quase 2 meses que pôs a nu toda essa situação, incluindo a indicação das responsabilidades por esse tremendo descuido com o “corpo” que abrigava a proposta inovadora e arrojada da EACH, e que quase ocasionou a perda de todo o conjunto. A mobilização de toda a comunidade que trabalha, estuda e frequenta o campus conseguiu eleger uma nova direção para a Escola. E esta, embora não tenha sido ainda empossada, já está na prática governando, com a ajuda dos órgãos colegiados e comissões que compõem a estrutura da Escola. Graças a esse movimento é que o judiciário conduziu um inquérito que determinou a interdição do campus e que poderá nos proporcionar a internação do “doente” antes que ele faleça.
Há chances de recuperação. Mas estas só se apresentaram a partir do momento em que a comunidade de alunos, professores e funcionários despertou para o fato e resolveu adotar as medidas urgentes e até mesmo agressivas que a situação requer, paralisando, agora oficialmente (e até antes de esgotado o prazo judicial), todas as atividades e colocando o ‘campus’ em tratamento intensivo. Fica aí uma lição, pois grandes (e pequenas) civilizações já ruíram por motivos semelhantes quando descuidaram do “corpo” ou do território. Na “era de extremos”, todas as questões são sociais e ambientais, ou socioambientais, em uma palavra. Nenhuma delas se soluciona mais, sem o concurso da outra. Ou seja, má gestão em uma, determina necessariamente a deterioração da outra.
Para maiores informações:
CARVALHO, M. B. Novos Horizontes para o Urbano: Urbanidades, Biocivilização e Resistência na Universidade (USP-LESTE). Biblio 3W. 20 de julio de 2011, vol. XVI, nº 932. <http://www.ub.edu/geocrit/b3w-932/b3w-932–2.htm>
CARVALHO, M. B. Conflitos entre inovação pedagógica e gestão acadêmica na EACH-USP (Brasil). En: VII Congres Internacional de Docència Universitaria i Innovació. VII CIDUI: La Universitat, una Institució de la Societat. Barcelona, 2012.
Informações completas sobre o movimento da comunidade da EACH, no site da Associação dos Docentes da USP: <http://www.adusp.org.br/>
Marcos B. de Carvalho, é Geógrafo, membro da Red Geocrítica Internacional e professor da Universidade de São Paulo, EACH-USP.
Ficha bibliográfica
CARVALHO, M. B. Somos todos EACH-USP ou “nós somos vocês amanhã”. GeocritiQ. 1 de enero de 2014, nº 22. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2014/01/somos-todos-each-usp-ou-nos-somos-voces-amanha-3/>


